Resenha

O Dia que o Sol Encolheu
Escrito por John Dekowes.
Literatura de Ficção Científica.
Editora Perse.
ISBN 978-85-8196-243-6

Resenha por Lorna Dannan

Comecei a ler O Dia que o Sol Encolheu com uma ideia fixa na mente: será que é mais um daqueles livros apocalípticos sobre o final do planeta e todos correndo como loucos de um lado para o outro?

Bem, eu estava errada, o livro não é sobre isso, o livro é um tratado sociológico e epistemológico, filosofia que trata da natureza do conhecimento, sua origem, que vai além da pura Ficção Científica. Sinceramente acho que é um estudo da alma humana diante do que ela mais teme, perder o lugar onde vive, o lugar onde busca proliferar sua descendência. É algo mais profundo e quem ler irá notar isso nas entrelinhas…

Para quem gosta de ficção científica e reforço a palavra ‘científica’ vai adorar este romance. Aqueles que já leram minhas resenhas sabem que faço uma crítica sincera sobre o que leio, então procederei da mesma forma aqui.

Conheço John há algum tempo e já li material dele. Ele sempre é perfeccionista com os detalhes e isso não mudou nada, mas para os neófitos em ficção científica talvez o texto seja um tanto perturbador a princípio, pois logo no preâmbulo o leitor será inundado de informações sobre o passado distante e o atual presente do planeta, nosso planeta? Sim… Nossa preciosa Terra dividida novamente e cheia seres viventes em conflito.

O texto nos faz mergulhar de cabeça neste meandro de informações, nada é suave, mas a leitura neste ponto irá despertar dois sentimentos: você continuará, pois ficou muito curioso para saber mais sobre as ‘cápsulas de mnemotron’ e os conflitos religiosos científicos ou desistirá mesmo antes de entender o que tudo isto significa. Meu conselho é que você continue, mesmo que as informações a princípio não pareçam nada sutis. Continue, pois há muitas revelações nos capítulos vindouros.

Então o enredo pula para o futuro, um futuro distante onde a espécie, bem… A raça em conflito tomou de assalto o espaço e dele se compraz para espalhar a dúvida e a insatisfação. O cenário é belíssimo a convergência e colisão da Via Láctea com a Galáxia Andrômeda são narrados magistralmente… Então o autor faz uma narrativa temporal, sobre como a Terra chegou até este instante.

Agora a Terra semi ou quase inerte ainda abriga os Humnos e os Térqueos, duas facções, a mesma raça, duas ideias diferentes sobre como se originaram, duas vertentes antagônicas que se tornaram inimigas duradouras durante milhares de anos, a sua frente apenas a luta pela sobrevivência, pois teimosamente ainda vivem no mesmo lugar e não abandonaram o planeta de origem, a Terra. Então a história propriamente dita tem início, e agora sim caro leitor é que o autor nos mostra os verdadeiros conflitos.

O enredo segue permeado de cenas de destruição, até que uma breve volta ao cerne da questão retorna e podemos entender o conflito de dois personagens principais M’arya e R’annkonn, dois cientistas com ideias bem diferentes de como proceder nas experiências de volta ao passado usando cápsulas de ‘memória vital’, pelo menos é assim que as vejo, chamadas pelo autor de ‘mnemotron’… Para alguns a última esperança de entender como chegaram a um conflito separatista entre a humanidade, para outros um meio de encontrar o modo de salvar a todos da destruição iminente.

Outros planetas do Sistema Solar e seus habitantes, talvez mais sábios dos que os Humnos e os Térqueos já tinham singrado para lugares mais longínquos encontrando outro lar para habitar, e outros continuam cedendo aos Humnos e aos Térqueos tecnologia bélica de grandes proporções. Os humanos são teimosos e abandonar a antiga Terra, mesmo em guerra ou desafios constantes, mesmo na iminente destruição e colapso total, é algo que nem passa pela cabeça dos inimigos milenares… Então os personagens principais, os dois cientistas graduados e cheios de bons motivos chegam a um impasse. Rumar para o passado e consertar tudo que deu errado, ou, aceitar o destino da Terra e aguardar a destruição total.

Neste ponto não é possível parar de ler o livro, nem ao menos há tempo de piscar ou dar um fugidinha até a cozinha ou o banheiro, a leitura te consome e a curiosidade também. John sabe mesmo manejar o suspense nos dando mais pistas do que cerca o acontecimento principal, ele narra as modificações e consequências de anos de desentendimento e guerras de forma vertiginosa, então algumas vezes tive que voltar alguns capítulos para entender o que estava ocorrendo.

Neste ínterim preciso falar do capítulo nove, O Planeta Refém, para mim o melhor capítulo para decifrar as ideias centrais dos dois povos que tornaram-se inimigos perpétuos, sua belicosidade e sua ânsia por tomar todo o planeta para um único lado, na verdade não há um motivo real, o que há são desentendimentos filosóficos sobre a origem de cada um, alguns creem terem vindo de uma entidade sobrenatural maior, um Deus onipresente e egoísta. E o outro lado crê ter surgido a partir da benevolência de seres superiores, entende-se aí seres alienígenas.

E quando tudo parece perdido os Nurönms de Andrômeda surgem do nada. Que destino brincalhão, pensei eu com meus botões, quando Humnos e Térqueos estão a beira de explodir toda a Terra e finalmente extinguir a própria existência algo externo a eles aparece e lhes dá novas esperanças, resgatam parte da humanidade… Mas não acredite que é o fim das desavenças, independente dos milênios e da tecnologia, o coração, digo melhor, a alma humana continua a mesma, mesquinha e egoísta, sedenta de poder… E alguns Térqueos e Humnos ficam para trás.

Então entre resgate de alguns e a permanência de outros ainda em uma Terra semi destruída, ou em iminente destruição, os próprios Térqueos e Humnos após milênios não podem ir contra a única coisa que ainda os controla, as mutações da natureza, algo bem mais poderoso do que eles. A raça humana se transforma em outra coisa, uma coisa resistente às adversidades planetárias. Mas a alma continua a mesma e as desavenças também…

Então os Yidhas surgem no horizonte, não trazem salvação, mas destilam esperança, parecem manipular muito bem os dois lados da questão e parecem iludir tanto os Térqueos como os Humnos, e estes tão isolados por sua mesquinhez são manipulados sem perceber. Mas no fundo foram os Yidhas que forneceram um novo modo de vida para esta humanidade em frangalhos, estes dois povos em contínuo conflito.

Depois de muito tempo Humnos e Térqueos não veem outra saída, logo após saberem que o Sol irá encolher procuram por outra morada e encontram. Mas será que se unirão para seguir viagem à estrela Phestor, onde há um planeta similar à Terra localizado no centro de Andrômeda? Na verdade será Andrômeda que seguirá em direção à Via Láctea e na união destas duas Galáxias algo surpreendente irá ocorrer. Não irei estragar esta surpresa…

E no final algo emocionante ocorre.

Enfim, John Dekowes novamente se supera neste livro, filosofando sobre algo além do puro cientificismo, ele introduz uma cisma sociológica relevante ao tocar no íntimo da religião e suas distorções, mais do que isso, ele realiza um estudo sobre as dúvidas mais intrínsecas de qualquer ser vivente: De onde eu vim? Por que existo? Como eu existo? E o que é todo este vazio que me preenche? É a alma? E de onde ela veio? Para onde ela vai?

E sim… As respostas ainda cabem para o bom senso de cada um.

O livro é uma obra digna de ser chamada Ficção Científica irá levar o leitor a outro lugar completamente diferente da onde vivemos, com outros objetivos, não só comer, dormir e fazer necessidades fisiológicas. Sem falar nas descrições aguçadas dos fenômenos que irão incidir sobre um planeta Terra futuro e combalido.

Realmente me transportei ao ler o livro e sinceramente pude internalizar os conflitos de M’arya e R’annkonn como se fossem meus próprios conflitos. E por trás de tudo isso, ainda havia aquele senso comum a todos, que mesmo buscando o poder sobre um planeta e mesmo criando guerras, e eclodindo conflitos sem sentido, no fundo somos todos da mesma raça, somos humanos.

Só posso dizer que recomendo esta leitura, tenha paciência e persistência e você chegará a um final emocionante.

Lorna Dannan.

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2 comentários sobre “Resenha

  1. Já li Esther e Arthur também de John Dekowes e gostei muito, agora fiquei com vontade de ler O dia em que o sol encolheu!

  2. Pingback: E no final algo emocionante ocorre. | O dia em que o Sol encolheu

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