Preâmbulo

263 mil anos d.C.

Antes da Terra passar pela sua mais terrível guerra planetária, os habitantes pertenciam somente a uma casta que denominavam de raça humana. Naqueles tempos o termo “raça” se tornara genérico para todas as criaturas do planeta e cada espécie se dividira ou subdividira em diversas raças, o que não significava, contudo, um consenso geral. Dentro da própria raça, apesar das tantas partilhas genéticas, existiam aqueles divergentes que não se consideravam pertencer ao tronco ramificado e decadente da raça humana, porém descender de uma espécie superiora. Abominavam todo o material científico-religioso guardado na Biblioteca de Alkanlurx, o qual se referia ao nascimento da espécie humana desde o primórdio dos tempos. Consideravam que toda a história fora manipulada.

No cinerama bioespacial, com a ajuda das “Cápsulas de Mnemotron” podiam voltar àquelas épocas e pesquisar a fundo a gênese. Entretanto, retornar continuamente no tempo causava distorções e danos irreparáveis à saúde e à mente, e, principalmente, implicava também em perder temporariamente alguns instantes do presente.

A cientista e mnemometra M’arya trabalhava no Instituto Alkanlurx, um imponente prédio envidraçado em formato de bolha, só que espetado num pilar com 380 metros de altura acima do nível do mar. E ao redor, desciam cabos de aço vítreos que se aprofundavam na terra a quilômetros de distâncias dali. E abaixo de cada um, num total de 40, encontravam-se complexos científicos e militares que colhiam e guardavam todas as informações recebidas dos viajantes temporais. Apesar de M’arya ser uma das organizadoras da Biblioteca de Alkanlurx e sua principal pesquisadora e preservacionista exclusiva das “Cápsulas de Mnemotron”, não via com bons olhos o que estava acontecendo ao redor. Talvez fosse a única a notar.

Aqueles mais radicais, com permissão especial do governo terrestre e que negavam a ontogênese, procuravam assiduamente, como ideia fixa, conhecer suas origens, numa entrega quase que total, abandonando o tempo presente que avançava célere para o futuro. Entre eles se encontrava o seu amigo e pesquisador R’annkon que achava aquilo perfeitamente normal. Afinal era um direito deles. Mas apesar discordarem a respeito daquele assunto, ambos como cientistas, concordavam numa coisa: aquele ir e vir estava ocasionando uma ruptura temporal com a realidade muito grande e,  o regresso, não os deixava mais apaziguados, muito pelo contrário, voltavam obcecados e irados com o detrimento religioso criado por uma divindade egoísta, que praticava o hedonismo de forma amoral e maledicente.

Não podiam crer que tivessem sido gerados à imagem de um Deus que se prevalecia dos fracos e oprimidos para a construção do seu império. Uma entidade megalomaníaca! Alguma coisa estava errada. A raça humana não podia ter nenhum vínculo com aquela entidade monstruosa, contudo, eles jamais estariam ou ficariam submissos àquelas histórias infundadas e decrépitas.

E o resultado foi um desencadeamento de conflitos religiosos por todo o planeta.

A princípio tudo era visto com desdém e não levado muito a sério, entretanto, com o tempo, o antagonismo foi aumentando até se tornar preocupante; com o surgimento de rixas entre grupos rivais: os sectários das velhas tradições contra os que acreditavam pertencer a uma raça superior. E, rapidamente, os conflitos foram tomando conta da vida de todos, crescendo pelas cidades, alastrando-se feito uma moléstia incurável e adquirindo proporções mundiais. O planeta se dividiu em duas facções inimigas: os Térqueos e os Humnos. Os Térqueos acreditavam na superioridade do ser humano, oriundo de uma descendência mais nobre e, os Humnos, numa verdade absoluta: num Deus superior, que os criara à sua imagem e semelhança. Como muitos apregoavam – os mais moderados na questão -, a ruptura desuniu famílias, trazendo sentimentos de ódio, rancor e muita violência.

Pais e filhos se tornaram adversários mortais em embates hostis, até que se perdeu a serenidade das emoções e o respeito mútuo entre todos. Conflitos armados entre grupos rivais assolavam por todos os cantos. Cada um erguia sua bandeira manchada de sangue acima da cabeça, como uma vitória, sem se importar se feria parentes ou amigos. A capital Tus’ya se transformara no centro do interesse das duas facções que “brigavam” – entre aspas – pela supremacia indiscreta da sua totalidade. Existiam ainda – apesar de o tempo ter transcorrido em milhares de séculos – constrangimentos emocionais prejudicando uma separação completa.

Muitos Térqueos foram Humnos e muitos Humnos foram Térqueos, e era bastante problemática essa relação para ambos os lados, que se toleravam amparados por um ódio desmesurado.

Os Térqueos nunca iriam tolerar que indecentes Humnos transformassem o planeta num antro de perdição religiosa, no qual o valor da raça fosse esquecido em prol de um Deus recalcado e presunçoso! A submissão não fazia parte do seu gene! Nem os Humnos iriam deixar que Térqueos imundos dominassem, trazendo o vazio das máquinas e a frieza de suas almas…

No auge da batalha, quando não havia vencidos nem vencedores, apenas seres tentando provar suas frágeis verdades, os líderes se reuniram em território neutro e, numa jogada de estratégica política religiosa, elaboraram o “Tratado de Shewökd” em que estabelecia, em linhas gerais, a existência de uma trégua por tempo indeterminado, desde que cada parte respeitasse seus credos religiosos/políticos e não iniciasse nenhum atrito ofensivo. O objetivo principal oculto neste tratado foi a urgência que sentiam de buscar aliados fortes fora da Terra, aproveitando os eventos siderais: a elongação e a aproximação dos planetas do Sistema Solar, de uma posição privilegiada, nos planos das órbitas elípticas de cada um, para transporem os obstáculos dimensionais com mais facilidades.

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